Leitura Semanal - Diários do Vampiro, o retorno: Meia-Noite #21
Sinopse: Elena retorna da Dimensão das Trevas, tendo liberto seu namorado vampiro Stefan Salvatore do aprisionamento... Mas não sem uma consequência. Sua salvação custará bastante. Ainda se recuperando do último choque, eles são forçados a encarar os demônios que dominaram Fell's Church. Elena deve tomar uma decisão que custará seu amor: Damon ou Stefan?
Capítulo 39
Elena puxou a criança
para mais próxima de si. Damon havia entendido, mesmo em seu estado atordoado e
confuso. Todo mundo estava conectado. Ninguém estava sozinho.
— E ele pediu outra coisa. Ele perguntou se você poderia me abraçar,
desse jeito... Se eu dormir — Os olhos negros de veludo encararam o rosto de
Elena. — Você faria isso?
Elena tentou se manter estável.
— Eu vou te abraçar — Ela prometeu.
— E nunca vai me soltar?
— E eu jamais vou te soltar —
Elena lhe disse, pois ele era uma criança e não havia motivos para assustá-lo.
E porque, talvez, porque essa parte de Damon — essa pequenina e inocente
parte — poderia do tipo que “vivesse para sempre”. Ela ouvira dizer que
vampiros não voltavam, não reencarnavam igual os humanos. Os vampiros da
Dimensão das Trevas ainda estavam “vivos” — os aventureiros, os caça-fortunas e
os condenados à prisão pela Corte Celestial.
— Eu vou te abraçar — Elena prometeu novamente. — Para todo o sempre.
Nessa hora, seu corpinho começou a ter outro espasmo, e ela viu lágrimas
nos cílios negros dele, e sangue em seus lábios. Mas antes que ela pudesse
dizer alguma coisa, ele adicionou:
— Eu tenho outros recados. Eu os sei de cor. Mas... — Seus olhos
imploraram por perdão — Eu tenho que dá-los aos outros.
Quê outros? Elena pensou primeiramente, aturdida.
Então ela se lembrou. Stefan e Bonnie. Havia outros entes queridos.
— Eu posso… Dar-lhes o recado — Ela disse hesitantemente, e ele lhe deu
um sorrisinho, o seu primeiro, bem no canto dos lábios.
— Ele me deixou um pouco de telepatia, também — Ele disse. — Para o caso
de eu precisar falar com você.
Ainda ferozmente independente, Elena pensou.
Tudo o que ela disse foi:
— Vá em frente, então.
— O primeiro é para o meu irmão, Stefan.
— Você pode dizer isto a ele em pouco tempo — Elena disse.
Ela se agarrou àquele corpinho dentro da alma de Damon, sabendo que essa
era a última coisa que havia sobrado. Ela poderia sacrificar alguns preciosos
minutos, então Stefan e Bonnie poderiam se despedir. Ela fez um tremendo
esforço para se ajustar ao seu corpo real... Seu corpo fora da mente de Damon,
e encontrou-se abrindo seus olhos, piscando para tentar focar sua visão.
Ela viu o rosto de Stefan, branco e aflito.
— Ele está...?
— Não. Mas logo estará. Ele pode ouvir telepatia, se você pensar
claramente, como se você estivesse falando. Ele pediu para falar contigo.
— Comigo?
Stefan se curvou lentamente e colocou suas bochechas contra as do irmão.
Elena fechou os olhos novamente, guiando-o através da escuridão, onde uma
pequena luz ainda estava brilhando.
Ela sentiu os pensamentos de Stefan quando ele a viu lá, ainda segurando
o menino com cabelos escuros em seus braços.
Elena não havia percebido que, por meio de sua ligação com a criança,
ela poderia ser capaz de ouvir cada palavra pronunciada. Ou que os recados de
Damon viriam em palavras de uma criança.
O garotinho disse:
— Você deve pensar que eu sou um idiota.
Stefan começou a falar. Ele nunca tinha visto ou ouvido o Damon-criança
antes.
— Eu nunca pensaria isso — Ele disse bem devagar, maravilhado.
— Mas isso é uma coisa bem típica... Dele,
você sabe... Típica... Minha.
— Eu acho — Stefan disse vacilante — que é bem triste... Eu nunca ter
realmente conhecido vocês dois.
— Por favor, não fique triste. Foi isso que ele me pediu para dizer. Que
você não devia ficar triste... Ou com medo. Ele disse que é quase como se ele
fosse dormir, quase como se ele fosse voar.
— Eu... Me lembrarei disso. E… Obrigado, irmãozão.
— Eu acho que isso é tudo. Você sabe como cuidar das nossas garotas...
Houve um outro terrível espasmo que deixou a criança sem ar.
Stefan disse rapidamente:
— Claro. Eu tomarei conta de tudo. Pode ir.
Ela pôde sentir algo pesar no coração de Stefan, mas sua voz estava
calma.
— Voe para longe, irmão. Voe bem longe.
Elena sentiu algo através de sua ligação... Bonnie tocando o ombro de
Stefan. Ele rapidamente ascendeu para que ela pudesse vir aqui. Bonnie estava
quase histérica com os soluços, mas ela havia feito uma coisa boa, Elena viu.
Enquanto Elena esteve em seu mundinho com Damon, Bonnie havia pegado um punhal
e cortado uma longa mecha do cabelo de Elena. Então ela havia cortado uma de
seus próprios cachos de morango e as amarrou entre si — formando um ondulado
dourado, um entrosamento vermelho e amarelo —, colocando-as no peito de Damon.
Isso era tudo que eles poderiam fazer neste lugar sem flores, para honrá-lo e
para que ele tivesse algo para sempre junto dele.
Elena pôde ouvir Bonnie, também, através de sua ligação com Damon, mas,
primeiro, tudo o que Bonnie pôde fazer foi soluçar.
— Damon, por favor! Oh, por favor! Eu não sabia… Eu nunca pensei… Que
alguém poderia se machucar! Você salvou minha vida! E agora... Oh, por favor! Eu não posso dizer adeus!
Ela não entendia, Elena pensou, que ela estava falando com uma criança.
Mas Damon havia enviado à criança uma mensagem que devia ser repetida.
— Eu devia te dizer adeus,
então — Pela primeira vez, a criança parecia desconfortável. — E... E eu devia
te pedir desculpas, também. Ele pensou que você saberia o que isso quer dizer e
que você me perdoaria. Mas... Se você não souber... Eu não sei o que vai
acontecer... Oh!
Outro espasmo hediondo passou pela criança. Elena o abraçou com mais
força, mordendo seus próprios lábios até que sangue saísse; ao mesmo tempo em
que tentava proteger o garotinho dos próprios sentimentos dela. E no fundo da
mente de Damon, ela viu a expressão de Bonnie mudar, indo da penitência com
lágrimas ao medo espantado, seguindo para o controle cuidadoso.
Como se Bonnie tivesse amadurecido em um minuto.
— É claro... Claro que eu entendo! E eu te perdoo... Mas você não fez nada de errado. Eu sou uma
menina muito boba... Eu...
— Nós não achamos que você seja uma menina boba — A criança disse,
parecendo imensamente aliviada. — Mas obrigado por me perdoar. Há um nome
especial que eu devia te chamar, também... Mas...
E encostou-se em Elena.
— Eu acho... Que estou... Ficando com sono…
— Seria “passarinho”? — Bonnie perguntou cuidadosamente, e o rosto
pálido do garotinho se ergueu.
— É isso. Você já sabia. Você é… Tão legal e tão esperta. Obrigado...
Por facilitar... Mas eu posso dizer mais uma coisa?
Elena
estava prestes a responder, quando ela, abruptamente, estava completamente fora
da mente de Damon, de volta à realidade. A Árvore havia aproximado mais um
ramo, aprisionando o corpo de Damon entre dois círculos de madeira.
Elena estava sem planos. Sem ideias de como pegar a Esfera Estelar pela
qual Damon morrera. Ou a Árvore era inteligente, ou ela estava ligada a
diversas defesas eficazes. Eles estavam deitados onde era evidente que muitas,
mas muitas pessoas haviam tentado pegar a Esfera Estelar — deixando seus corpos
para trás, no chão de areia.
Sendo assim, ela pensou, eu me pergunto por que ela não veio atrás de
nós, também... Especialmente Bonnie. Ela esteve lá dentro, e então saiu,
voltando novamente para lá; no qual, eu nunca a deixaria ter feito isso, caso
eu não estivesse pensando em Damon. Por que ela não foi atrás de Bonnie
novamente?
Stefan estava tentando ser forte, tentando organizar algo no meio desse
desastre, que fora tão impressionante que fez com que Elena se sentasse. Bonnie
estava soluçando novamente, fazendo sons comoventes.
Os dois círculos de madeira estavam se espalhando — ficando cada vez
mais próximos que nem mesmo Bonnie pôde passar as mãos por ali. O grupo de
Elena estava eficientemente longe de qualquer coisa que viesse daquele piso de
areia, assim como estavam longe da Esfera Estelar.
— O machado! — Stefan a chamou. — Jogue-o para mim…
Mas não havia tempo. Uma radícula havia se enrolado em torno do machado,
arrastando-o rapidamente para os ramos superiores.
— Stefan, me desculpe! Eu estou lerda demais!
— Aquilo foi rápido demais! — Stefan corrigiu.
Elena prendeu a respiração, esperando uma última colisão vinda de cima,
uma que mataria a todos eles. Quando ela percebeu que ela não veio, ela
percebeu uma coisa. A Árvore não era só inteligente, mas também sádica. Eles
deveriam ficar presos aqui, longe de qualquer suprimento, morrendo lentamente
de fome e de sede, ou enlouquecer ao ver os outros morrerem.
O melhor que eles podiam esperar era que Stefan matasse tanto Bonnie
quanto ela — mas ele nunca conseguiria escapar. Estes ramos de madeira
desceriam de novo e novo, quantas vezes a Árvore achasse necessário, até que os
ossos esmagados de Stefan se juntassem aos outros que haviam formado aquela
areia fina.
É por isso, eles todos perceberam, que ela estava prendendo Damon; ela
estava zombando de sua morte. Aquela coisa
que estava inchando dentro de Elena há algumas semanas, ao ouvir as histórias
das crianças que comeram seus animais de estimação, aquelas criaturas que se
deleitavam com a dor, junto com o sacrifício de Damon, finalmente ficou de tal
tamanho que ela não conseguiu mais contê-la.
— Stefan, Bonnie... Não toque nos ramos — Ela arfou. — Certifiquem-se de
que vocês não estão tocando em nenhuma parte dos ramos.
— Eu não estou, amor, e Bonnie também não está. Mas por quê?
— Eu não consigo mais segurar! Eu preciso encarar isso…
— Elena, não! Isso...
Elena não conseguiu mais pensar. A
odiosa penumbra estava levando-a à loucura, fazendo com que ela se lembrasse do
pontinho verde nas pupilas de Damon, a luz verde e horrível da Árvore.
Ela entendeu exatamente o sadismo da Árvore para com os seus amigos... E
nos cantos de seus olhos, ela pôde ver algo preto... Parecido com uma boneca de
pano. Só que não era uma boneca; era Damon. Damon, com todo o seu espírito
selvagem e inteligente destruído. Damon... Que devia ter partido daqui, e de
todos os mundos, neste instante.
O rosto dele estava coberto com o sangue dela. Não havia nada pacífico
ou digno dele. Não havia nada que a Árvore já não tivesse tirado.
Elena perdeu a cabeça.
Com um grito cru e sangrento que veio de sua espinha dorsal, saindo
rouco de sua garganta, Elena agarrou um ramo de árvore que tinha matado Damon,
que tinha assassinado seu amado e que a mataria, assim como aos outros dois que
ela também amava.
Ela não pensou. Ela não era capaz de pensar. Mas, instintivamente, ela
segurou bem alto o galho da Árvore e deixou a fúria sair de dentro dela, a
fúria de um amor assassinado.
Asas da Destruição.
Ela sentiu as Asas saírem de suas costas,
como rendas e pérolas negras de ébano, e por um momento ela sentiu com se fosse
uma deusa fatal, sabendo que este planeta nunca mais abrigaria qualquer forma
de vida.
Quando
o ataque saiu, fez com que todo o crepúsculo ao redor dela ficasse preto fosco.
Que cor adequada. Damon vai adorar, ela pensou confusa, e então ela se
lembrou de novo, isso batendo com força sobre ela, dando-lhe Poder para
destruir a Árvore desse mundinho. Aquilo a havia destruído por dentro, mas ela
deixou com que aquilo continuasse vindo. Nenhuma dor física podia se comparar
com o que ela tinha em seu coração, com a dor de perder o que ela havia
perdido. Nenhuma dor física podia expressar o que ela sentia.
As enormes raízes no solo abaixo deles ainda resistiam, como se houvesse
um terremoto, e então...
Houve um som ensurdecedor, enquanto a Grande Árvore explodia, subindo em
linha reta como se fosse um foguete, desintegrando-se em cinzas enquanto subia.
Os ramos ao seu redor simplesmente desapareceram junto com a copa acima. Algo
na mente de Elena observou que muito longe a mesma destruição estava
acontecendo, transformando os galhos e as folhas em pedaços minúsculos que
pairavam no ar como se fosse fumaça.
— A Esfera Estelar! — Bonnie gritou no silêncio lúgubre, angustiada.
— Vaporizada! — Stefan pegou Elena enquanto ela caía de joelhos, suas
asas negras etéreas desaparecendo. — Mas nós nunca a tínhamos, de qualquer
forma. Aquela Árvore a esteve protegendo durante centenas de anos! Tudo que
ganharíamos seria uma morte lenta.
Elena virou-se novamente para Damon. Ela não havia tocado na estaca que
o havia atravessado... Em segundos, ela seria o único vestígio da Árvore naquele
mundo. Ela mal podia ousar ter esperanças de que houvesse uma centelha de vida
ainda nele, mas a criança tinha vontade de falar com ela e ela faria o possível
para vê-lo, ou morreria tentando. Ela quase sentia os braços de Stefan em torno
dela.
Mais uma vez, ela plugou-se nas profundezas da mente de Damon. Dessa vez
ela sabia exatamente aonde ir.
E lá estava ele, devido a um milagre, embora estivesse sentindo uma dor
hedionda. Lágrimas caíam de seu rosto e ele estava tentando não soluçar. Seus
lábios estavam machucados. As Asas dela não foram capazes de destruir a madeira
dentro dele... Ela já havia feito estragos venenosos. E não havia jeito de
reverter isso.
— Oh, não. Oh, Deus! — Ela colocou a criança em seu colo.
Uma lágrima caiu em sua mão.
Ela o balançou, mal sabendo o que ela dizendo:
— O que eu posso fazer para ajudar?
— Você está aqui de novo — Ele disse e, em sua voz, ela ouviu a
resposta. Isso era tudo o que ele queria.
Ele era só uma criança.
— Eu estarei aqui... Sempre. Sempre. Eu nunca vou te abandonar.
Isso não teve o efeito que ela desejava. O garoto engasgou, tentando
sorrir, mas foi dilacerado com um espasmo horrível que quase arqueou seu corpo
dos braços dela.
E Elena percebeu que ela estava transformando a dor inevitável em uma
tortura lenta e excruciante.
— Eu vou te abraçar — Ela modificou suas palavras para ele —, até quando
você quiser. Tudo bem?
Ele concordou. Sua voz estava sem fôlego, com dor:
— Você poderia... Poderia fechar meus olhos? Só… Só por um instante?
Elena sabia, apesar do menino não saber, o que aconteceria se ela
parasse de insistir e o deixasse dormir. Mas ela não podia aguentar vê-lo
sofrendo mais, e nada era real novamente, e não havia mais ninguém no mundo
para ela, e ela não se importava em fazer isso se isso significasse que ela o
seguiria para a morte.
Estabilizando sua voz cuidadosamente, ela disse:
— Talvez... Nós dois possamos fechar nossos olhos. Não por muito tempo… Não!
Mas... Só por um instante.
Ela continuou balançando aquele corpinho em seus braços. Ela ainda pôde
sentir um pulso fraco de vida... Não um batimento cardíaco, mas ainda assim,
uma pulsação. Ela sabia que ele ainda não havia fechado seus olhos; que ele
ainda estava lutando contra a tortura.
Por ela. Por nada mais. Somente por ela.
Colocando seus lábios na orelha dele, ela sussurrou:
— Vamos fechar nossos olhos juntos, certo? Vamos fechá-los... Quando eu
contar três. Tudo bem?
Houve um pouco de alívio e um pouco de amor na voz dele.
— Sim. Juntos. Estou pronto. Você pode contar agora.
— Um.
Nada importava exceto segurá-lo e manter a si mesma calma.
— Dois. E...
— Elena?
Ela se assustou. A criança alguma vez já havia ditto o seu nome antes?
— Sim, querido?
— Elena... Eu... Te amo. Não só por
causa dele. Eu te amo também.
Elena teve que esconder seu rosto no cabelo dele.
— Eu te amo, também, pequenino. Você sempre soube disso, não soube?
— Sim... Sempre.
— Sim. Você sempre soube. E agora… Bem, fechemos nossos olhos… Só por um instante. Três.
Ela esperou até que o último movimento parasse, e a cabeça dele caiu
para trás, seus olhos estavam fechados e a sombra do sofrimento se fora. Ele
parecia, não pacífico, mas simplesmente gentil e amável, e Elena pôde ver em
seu rosto as características adultas de Damon e a expressão semelhante.
Mas agora, até mesmo aquele pequeno corpo estava evaporado direto dos
braços de Elena. Oh, ela era tão estúpida. Ela havia se esquecido de fechar os
olhos com ele. Ela estava bem tonta, mesmo com Stefan tendo parado o
sangramento do seu pescoço. Fechando os olhos... Talvez, ela ficaria do mesmo
jeito que ele. Ela ficou contente que ele tinha partido gentilmente, no fim.
Talvez as trevas fossem gentis com ela, também.
Tudo estava quieto agora. Era hora de arrumar os brinquedos e fechar as
cortinas. Hora de ir para a cama. Um último abraço... E agora seus braços
estavam completamente vazios.
Não havia nada mais para se fazer, nada mais para se lutar. Ela fizera o
seu melhor. E, no fim, a criança não estava com medo.
Hora de apagar a luz agora. Hora de fechar seus próprios olhos.
As
trevas foram bem gentis com ela, e ela entrou nisso suavemente.
Capítulo
40
Mas depois de um tempo
sem fim na escuridão gentil e suave, algo estava forçando Elena a voltar para a
luz. A luz de verdade. Não a luz verde da penumbra formada pela Árvore. Mesmo
com as pálpebras fechadas ela pôde senti-la, sentir seu calor. Um sol amarelo.
Onde ela estava? Ela não podia se lembrar.
E ela não se importava. Algo dentro dela estava dizendo que a gentil
escuridão era melhor. Mas então ela se lembrou de um nome.
Stefan.
Stefan estava…?
Stefan era um daqueles… Daqueles que ela amava. Mas ele nunca entendera
que aquele amor não era singular. Ele nunca entendera que ela podia estar
apaixonada por Damon e que isso nunca mudaria um átomo de seu amor por ele. E essa
falta de entendimento era tão violenta e dolorosa que ela se sentia dividida
por duas pessoas diferentes, às vezes.
Mas agora, antes mesmo dela abrir os olhos, ela percebeu que ela estava
bebendo algo.
Ela estava bebendo sangue de vampiro, e esse vampiro não era Stefan.
Havia algo único nesse sangue. Era mais profundo, temperado e pesado, tudo de
uma vez.
Ela não pôde evitar de abrir os olhos. Por alguma razão ela não
entendeu: eles se abriram e ela tentou de imediato se concentrar no aroma, cor e
sentimento de quem estava debruçado sobre ela, abraçando-a.
Ela não conseguiu entender, tampouco, seu senso de decepção quando ela,
lentamente, percebeu que era Sage debruçado sobre ela, abraçando-a suavemente,
mas de forma segura em seu pescoço, com o peito nu de bronze e quente do sol.
Mas ela estava deitada bem reta, na grama, pelo o que ela pôde sentir
através de suas mãos... E, por algum motivo, sua cabeça estava fria. Muito
fria.
Fria e úmida.
Ela parou de beber e tentou engolir. O punho de luz tornou-se mais
firme. Ela ouviu a voz de Sage falar, e sentiu o estrondo de seu peito enquanto
ele dizia:
— Ma pauvre petite, você deve
beber por mais alguns minutos ou mais. E seu cabelo ainda tem um pouco de
cinza.
Cinzas? Cinzas? Você não havia posto cinzas na sua cabeça para… O que ela estava pensando? Era como se sua mente tivesse sido bloqueada,
afastando-a de… Algo. Mas ninguém diria para ela o que fazer.
Elena se sentou.
Ela estava — sim, ela tinha certeza — no paraíso kitsune e, até um momento
atrás, seu corpo havia sido arqueado para trás, de modo que seu cabelo era um
fluído claro que ia até o chão. Stefan e Bonnie estavam lavando algo muito
preto de seus cabelos. Ambos estavam sujos também: Stefan tinha uma grande
mancha em uma de suas maçãs do rosto e Bonnie possuía listras tênues de cinza
cinza abaixo de seus olhos.
Chorando. Bonnie esteve chorando. Ela ainda estava chorando, com soluços
pequenos que ela estava tentando suprimir. E agora que Elena podia ver mais
claramente, ela pôde ver que as pálpebras de Stefan estavam inchadas e que ele
havia chorado também.
Os lábios de Elena estavam dormentes. Ela deitou-se novamente na grama,
olhando para cima, para Sage, que estava limpando os olhos furtivamente. A
garganta dela doía, não só por dentro, onde os soluços e as arfadas a fariam
doer, mas fora, também. Ela tinha uma imagem dela mesma cortando seu pescoço
com uma faca.
Através de seus lábios dormentes, ela sussurrou:
— Eu sou uma vampira?
— Pas encore — Sage disse
vacilante. — Ainda não. Mas Stefan e eu, ambos demos a você grandes quantidades
de sangue. Você deve tomar cuidado nos próximos dias. Você está no limite.
Isso explicava como ela se sentia. Provavelmente, Damon estaria esperando
que ela se tornasse uma, aquele perverso. Instintivamente, ela estendeu a mão
para Stefan. Talvez ela pudesse ajudá-lo.
— Não poderemos fazer nada durante um tempo — Ela disse. — Você não
precisa ficar triste.
Mas ela mesma se sentia errada. Ela não se sentia assim desde que ela
havia visto Stefan na prisão e pensou que ele morreria a qualquer momento.
Não... Era pior... Porque, com Stefan, havia esperança e Elena, agora,
sentia como se a esperança tivesse ido embora. Tudo se foi. Ela estava oca: a
garota que parecia sólida, mas seu interior estava completamente vazio.
— Estou morrendo — Ela sussurrou. — Eu
sei disso… Vocês todos vão se despedir agora?
E com isso, Sage — Sage! — engasgou e começou a soluçar. Stefan, ainda
parecendo estranhamente despenteado, com aqueles traços de fuligem no rosto e
nos braços e seu cabelo e roupa molhados, disse:
— Elena, você não vai morrer. A menos que queira.
Ela nunca vira Stefan desse jeito antes. Nem mesmo na prisão. Sua chama,
aquele fogo interior que ele não mostrava para ninguém a não ser Elena, havia
sumido.
— Sage nos salvou — Ele disse, devagar e cuidadosamente, como se lhe
custasse um grande esforço para falar. — As cinzas estavam caindo... E você e
Bonnie morreriam se respirarem
daquilo mais um pouco. Mas Sage colocou uma porta de volta para a Casa de
Portais bem na nossa frente. Eu mal pude vê-la; meus olhos estavam cheios de
cinzas e as coisas estavam piorando naquela lua.
— Cinzas — Elena sussurrou.
Havia algo no fundo de sua mente, mas mais uma vez sua memória falhou.
Era quase como se ela tivesse sido Influenciada para esquecer. Mas isso era
ridículo.
— Por que estava caindo cinzas? — Ela perguntou, percebendo que sua voz
estava rouca, áspera, como se ela tivesse gritado durante um jogo inteiro de
futebol.
— Você usou as Asas da Destruição
— Stefan disse vagamente, olhando para ela com seus olhos inchados. — Você
salvou nossas vidas. Mas você matou a Árvore... E a Esfera Estelar se
desintegrou.
Asas da Destruição. Ela devia ter
perdido a paciência. E ela matara um mundo.
Ela era uma assassina.
E agora a Esfera Estelar estava perdida. Fell’s Church. Oh, Deus. O que
Damon diria para ela? Ela havia feito tudo…
Tudo errado. Bonnie
estava soluçando agora, com seu rosto virado para longe.
— Sinto muito — Ela disse, sabendo o quão inadequado aquilo era.
Pela primeira vez, ela olhou ao seu redor miseravelmente.
— Damon? — Ela sussurrou. — Ele não
vai falar comigo? Por causa do que eu fiz?
Sage e Stefan se entreolharam.
Gelo desceu pela espinha de Elena.
Ela começou a se levantas, mas suas pernas não eram aquelas que ela se
lembrava. Elas travaram na região do joelho. Ela estava encarando o chão, para
suas próprias roupas manchadas e molhadas... E, em seguida, algo parecido com
lama desceu sobre sua testa. Lama ou sangue coagulado.
Bonnie disse algo. Ela ainda estava soluçando, mas estava falando,
também, em uma voz muito rouca que fez com que ela parecesse mais velha.
— Elena... Nós não tiramos as cinzas
de seu cabelo. Sage teve que te dar uma transfusão de emergência.
— Eu mesma tiro — Ela disse, sem rodeios.
Ela flexionou seus joelhos. Ela caiu sobre eles, sacudindo seu corpo.
Então, ela inclinou em direção ao pequeno riacho e deixou sua cabeça cair para
frente. Através do choque gelado, ela pôde vagamente ouvir as exclamações das
pessoas acima d’água, e Stefan dizendo: “Elena, você está bem?” em sua cabeça.
Não, ela pensou de volta. Mas eu também não estou me afogando. Estou
lavando meu cabelo. Talvez Damon, ao menos, olhe para mim se eu estiver apresentável. Talvez ele volte conosco e lute
por Fell’s Church.
Deixe-me ajudá-la a levantar, Stefan enviou
silenciosamente.
Elena subiu ao ar. Ela puxou a cabeça pesada para fora da água e sacudiu
seu cabelo encharcado, mas limpo, de modo que ele caiu sobre suas costas. Ela
olhou para Stefan.
— Por quê? — Ela disse.
E então, com um pânico súbito:
— Ele já foi embora? Ele estava bravo…
Comigo?
— Stefan — Sage disse, cansadamente.
Stefan, que estava olhando com seus olhos verdes como se fosse um animal
acuado, fez um suspiro fraco.
— A Influência não está funcionando — Sage disse. — Ela vai se lembrar de tudo.














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