Leitura Semanal - Diários do Vampiro, o retorno: Meia-Noite #22

Semana que vem terá os últimos dois capítulos! :D






Sinopse: Elena retorna da Dimensão das Trevas, tendo liberto seu namorado vampiro Stefan Salvatore do aprisionamento... Mas não sem uma consequência. Sua salvação custará bastante. Ainda se recuperando do último choque, eles são forçados a encarar os demônios que dominaram Fell's Church. Elena deve tomar uma decisão que custará seu amor: Damon ou Stefan?

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Capítulo 41

  Stefan não se mexeu ou falou durante longos momentos. O coração de Elena inchou. De repente, ela estava com tanto medo quanto ele. Ela foi até ele e pegou suas duas mãos, que estavam tremendo.
  Querido, não chore, ela enviou. Deve haver tempo para salvarmos Fell’s Church. Deve ter. Não pode acabar assim. E, além disso, Shinichi se foi! Podemos chegar até as crianças; podemos quebrar o feitiço…
  Ela parou. Era como se a palavra “feitiço” ecoasse em seus ouvidos. Os olhos verdes de Stefan estavam preenchendo sua visão. Sua mente estava... Estava ficando difusa. Tudo estava se tornando irreal de novo. Em um minuto ela seria capaz de…
  Ela arregalou os olhos, respirando com dificuldade.
  — Você esteve me Influenciando — Ela disse.
  Ela pôde ouvir a raiva em sua própria voz.
  — Sim — Stefan sussurrou. — Estive Influenciando você por quase meia-hora.
  Como você ousa? Elena pensou, só para ele.
  — Vou acabar com isso... Agora — Stefan disse silenciosamente.
  — Eu também — Sage adicionou, parecendo exausto.
  E o universo fez um movimento lento e Elena se lembrou de tudo que eles estavam escondendo dela.
  Com um soluço selvagem, ela se levantou, espalhando gotas d’água, que chegavam até os seus pés como se fossem uma deusa da vingança. Ela olhou para Sage. Ela olhou para Stefan.
  E Stefan provou o quão corajoso ele era, o quanto ele a amava. Ele lhe contou o que ela já sabia.
  — Damon morreu, Elena. Eu sinto muito. Desculpe-me se... Eu a impedi de ficar com ele, como você queria. Sinto muito por ter ficado entre vocês. Eu não entendia... O quanto vocês se amavam. Eu compreendo agora.
  E então, ele colocou suas mãos em seu rosto. Ela queria ir até ele. Pare repreendê-lo, para abraçá-lo. Para dizer a Stefan que ela o amava do mesmo jeito, gota por gota, grão por grão. Mas seu corpo ficara dormente, e a escuridão estava ameaçando voltar novamente... Tudo que ela poderia fazer era se abraçar enquanto encolhia na grama. E então, de alguma forma, Bonnie e Stefan estavam ali, todos soluçando: Elena por causa da intensidade da nova descoberta; Stefan fazendo sons estranhos que Elena jamais vira antes; e Bonnie, com uma exaustão seca e violenta que parecia querer quebrar seu corpinho.
  O tempo perdeu todo o seu significado. Elena queria lamentar por cada momento da morte dolorosa de Damon, e por cada momento de sua vida, também. Tanto havia sido perdido. Ela não podia colocar sua cabeça no lugar, e ela não queria fazer nada além de chorar até que as trevas tomassem conta dela de novo.
  Foi aí que Sage quebrou o silêncio.
  Ele pegou Elena e a ergueu no ar, sacudindo seus ombros. Isso fez com que a cabeça dela fosse para frente e para trás.
  — Sua cidade está em ruínas! — Ele gritou, como se isso fosse culpa dela. — Meia-Noite pode trazer ou não um desastre. Oh, sim, eu vi isso tudo na sua mente quando eu a Influenciei. A pequena Fell’s Church já está devastada. E você nem ao menos vai lutar por ela!
  Algo brilhou através de Elena. Isso fez com que o torpor derretesse, junto com a frieza.
  — Sim, eu lutarei por ela! — Ela berrou. — Eu lutarei por ela com cada osso de meu corpo, até que eu detenha a pessoa que fez isso, ou até que eles me matem!
  — E agora, puis-je savoir, vocês voltarão a tempo?Se vocês forem do jeito que vieram, ela estará destruída!
  Stefan estava ao lado dela, apoiando-a, ombro a ombro.
  — Então, nós o forçamos a nos enviar de volta... Assim, poderemos chegar a tempo.
  Elena ficou encarando. Não. Não. Stefan não poderia ter dito isso. Stefan não forçaria a barra… E ela não teria feito com que ele mudasse. Ela voltou-se para Sage.
  — Não há razão para brigarmos! Eu tenho uma Chave Mestra na minha mochila, e magia funciona aqui dentro da Casa de Portais! — Ela gritou.
  Mas Stefan e Sage estavam se encarando, ambos ferozes e objetivamente. Elena queria ir até Stefan, mas o mundo estava fazendo outro de seus movimentos lentos. Ela temia que Sage atacasse Stefan, e que ela nem ao menos pudesse lutar por ele.
  Mas, ao invés disso, de repente, Sage jogou sua cabeça para trás e riu selvagemente. Ou, talvez, tenha sido algo entre um riso e um choro estrondoso. Era tão misterioso quanto o latido de um lobo, e ela sentiu o braço pequeno de Bonnie abraçá-la... Para confortar a ambas.
  — Mas que diabos! — Sage berrou, e agora havia um olhar selvagem em seus olhos, também. — Mais oui, quem se importa?
  Ele riu novamente.
  — Afinal, eu sou o Guardião dos Portais, e já quebrei as regras ao deixar vocês passarem por duas portas diferentes.
  Stefan ainda estava respirando com dificuldade. Agora ele havia erguido as mãos e agarrou Sage pelos ombros, sacudindo-o com a força de um vampiro enlouquecido.
  — O que você está dizendo? Não há tempo para conversar!
  — Ah, mas há, mon ami. Meus amigos, sim. O que vocês precisam é de uma artilharia pesada do céu para salvar Fell’s Church... E para desfazerem o estrago já feito. Para eliminá-lo de vez, fazer como se nunca tivesse acontecido. E — Sage adicionou deliberadamente, olhando diretamente para Elena — talvez… Só talvez… Desfazer os eventos acontecidos hoje, também.
  De repente, cada centímetro da pele de Elena estava formigando. Seu corpo inteiro estava escutando Sage, inclinando-se para ele, ansiando, enquanto seus olhos se arregalavam com a outra única pergunta que importava.
  Sage disse bem devagar, bem triunfantemente:
  — Sim. Eles podem dar vida aos mortos. Eles têm esse Poder. Eles podem trazer de volta mon petit tyran Damon… Enquanto eles te levam de volta à cidade.
  Stefan e Bonnie estavam segurando Elena. Ela não conseguia ficar em pé sozinha.
  — Mas por que eles ajudariam? — Ela sussurrou dolorosamente.
  Ela nem ao menos se permitia respirar um pouco de esperança, não até que ela entendesse tudo.
  — Daríamos em troca o que foi roubado deles há milênios atrás — Sage respondeu. — Vocês estão na fortaleza do inferno, vocês sabem. É isso que a Casa de Portais é. Os Guardiões não podem entrar aqui. Eles não podem invadir uma porta e exigir o que está lá dentro... Os Sete... Pardon, agora são Seis... Tesouros Kitsune.
  Nada de esperanças. Nem um pouquinho. Mas Elena ouvi-se dando uma risada selvagem.
  — Como podemos dar a eles um parque? Ou um campo de rosas negras?
  — Podemos dar a eles o direito ao parque e ao campo de rosas que está em cima dele.
  Nem um pinguinho de esperança, mesmo que ambos os lados do corpo de Elena estivessem tremendo agora.
  — E como vamos oferecer a eles a Fonte da Eterna Juventude e Vida?
  — Não vamos. Entretanto, eu tenho aqui várias embalagens que estão ansiosas para serem preenchidas. A ameaça de uma garrafa de La Fontaine sendo espalhada na Terra de vocês... Os devastaria. E, é claro — Sage adicionou —, eu conheço os tipos de pedras preciosas com encantamentos que eles mais anseiam. Aqui, me deixe abrir todos os Portais de uma vez! Aproveitem e peguem tudo que puderem!
  Seu entusiasmo era contagiante. Elena deu meia-volta, prendendo a respiração, arregalando os olhos ao ver o primeiro brilho de luz da porta.
  — Esperem — A voz de Stefan estava grossa de repente.
  Bonnie e Elena viraram-se de volta e congelaram, abraçando-se, tremendo.
  — O que o seu... Seu pai... Vai fazer quando ele descobrir que você permitiu isso?
  — Ele não vai me matar — Sage disse bruscamente, o tom selvagem de volta em sua voz. — Ele pode achar isso tão amusant quanto eu acho, e estaremos compartilhando risadas amanhã.
  — E se ele não achar isso engraçado? Sage, eu não acho... Damon não iria querer...
  Sage virou-se e, pela primeira vez desde que ela o conhecera, Elena pôde acreditar que ele era realmente filho de seu pai. Seus olhos até pareciam ter mudado de cor, para um amarelo flamejante, com pupilas de diamante, como se fosse um gato.
  Sua voz era como aço estilhaçado, mais duro que a de Stefan.
  — O que acontece comigo e meu pai é assunto nosso... Meu! Fique aqui se quiser. Ele nunca se importa com vampiros, de qualquer forma… Ele diz que eles já estão amaldiçoados. Mas eu farei tudo que puder para trazer mon chéri Damon de volta.
  — A qualquer custo?
  — Pode custar o inferno inteiro!
  Para surpresa de Elena, Stefan agarrou os ombros de Sage por um momento e, depois, simplesmente o abraçou, o máximo que pôde.
  — Eu só queria ter certeza — Ele disse silenciosamente. — Obrigado, Sage. Obrigado.
  Então ele se virou e caminho até a planta Radhika Real e, com um puxão, a arrancou do chão.
  Elena, com o coração batendo em seus lábios, garganta e ponta dos dedos, correu para recolher embalagens e garrafas que Sage estava tirando de uma nona porta que havia aparecido entre o campo de rosas negras. Ela pegou um galão e uma garrafa de água Evian, ambos com as tampas de segurança intactas. Elas eram de plástico, o que era bom, pois ela havia deixado ambas caírem a caminho da fonte borbulhante. Suas mãos estavam tremendo demais; e, o tempo todo, ela estava enviando orações monótonas.
  Oh, por favor. Oh, por favor. Oh, por favor!
  Ela, agora, tinha água da Fonte dentro das garrafas, com as tampas lacradas. E, então, ela percebeu que Bonnie ainda estava parada no meio da Casa de Portais. Ela parecia confusa, assustada.
  — Bonnie?
  — Sage? — Bonnie disse. — Como vamos levar essas coisas até a Corte Celestial, para barganharmos?
  — Não se preocupe — Sage disse gentilmente. — Tenho certeza que os Guardiões estão esperando por nós do lado de fora para nos prender. Eles nos levarão à Corte.
  Bonnie não parou de tremer, mas ela concordou e se apressou em ajudar Sage a pegar garrafas de Black Magic... E destruí-las.
  — Um sinal — Ele disse. — Un signe do que nós faremos com essa área caso eles não concordarem. Tome cuidado para não cortar suas lindas mãos.
  Elena, então, achou ter ouvido a voz rouca de Bonnie, e ela não estava em um tom feliz. Mas o murmúrio surdo de Sage foi reconfortante. Elena não iria se permitir ter esperanças ou entrar em desespero. Ela tinha uma tarefa em mãos, um esquema. Ela tinha um Plano Secreto para a Corte Celestial.
  Quando ela e Bonnie pegaram tudo que conseguiram carregar, com suas mochilas bem cheias, também; Stefan, com duas caixas pretas estreitas que evitavam fazer muitos movimentos; e Sage, que parecia uma mistura de Papai Noel com um Hércules lindo, bronzeado e com cabelos cumpridos, enquanto ele carregava dois sacos feito de lençóis, eles deram uma última olhada na Casa de Portais devastada.
  — Certo — Sage disse, então. — É hora de encararmos os Guardiões.
  Ele sorriu tranquilizadoramente para Bonnie.
  Como sempre, Sage estava certo. No momento em que eles saíram, Guardiãs de duas dimensões diferentes estavam esperando por eles. A duas primeiras pareciam vagamente com Elena: cabelo loiro, olhos azuis escuros, esbeltas. As Guardiãs do Mundo Inferior pareciam ser mais velhas, com uma pele tão escura que era quase ébano, com cabelo enrolado firmemente sob um boné em suas cabeças. Atrás delas havia carros aéreos dourado brilhantes.
  — Vocês estão presos — Uma das mais morenas disse, parecendo não gostar de seu trabalho — por removerem do santuário tesouros que, por direito, pertencem à Corte Celestial, onde foi concordado que eles deveriam ser mantidos aí, nos termos das leis de ambas as nossas dimensões.
  E então, foi só uma questão de tempo até que eles entrassem no carro aéreo.

  A Corte Celestial era... Celestial. Branco perolado com um toque de azul. Minarete. Havia uma longa distância desde o portão fortemente guardado — onde Elena viu um terceiro tipo de Guardiã, uma com um cabelo vermelho curto e inclinado, com olhos verdes penetrantes — até o palácio real, que parecia abranger uma cidade inteira.
  Mas foi quando o grupo de Elena foi guiado para a sala do trono é que o choque cultural realmente bateu. Era bem grande e bem mais glamoroso do que qualquer outra sala que Elena já imaginara. Nenhum baile de gala na Dimensão das Trevas poderia tê-la preparado para isso. O teto da catedral parecia ser feito inteiramente de ouro, assim como a dupla linha de colunas que marchavam verticalmente no chão.
  O piso em si era de malaquita modeladamente intricada com ouro e lápis-lazúli, o ouro usado, aparentemente, como cimentação — feito por mãos habilidosas. As três fontes douradas no meio da sala (a do meio era a maior e mais elaborada) jogava ao ar não água, mas pétalas de flores delicadamente perfumadas que brilhavam como se fossem diamantes ao chegar a seu ápice, flutuando para baixo logo em seguida. Vitrais em cores brilhantes que Elena não se lembrava de ter visto antes jogava luzes de arco-íris em todas as paredes, como se fossem bênçãos, dando calor nas formas gravadas em ouro.
  Sage, Elena, Stefan e Bonnie estavam sentados em pequenas cadeiras confortáveis a poucos metros de um grande tablado, coberto com um pano fantasticamente tecido a ouro. Os tesouros estavam espalhados na frente deles, enquanto assistentes vestidos de azul e ouro levavam os objetos, um a um, até as três comandantes do fundo.
  As governantas eram compostas por um de cada grupo dos Guardiões — loira, morena, ruiva. Seus lugares na tribuna asseguravam que elas estavam distantes — bem acima — de seus peticionários. Mas com o Poder enviado para seus olhos, Elena pôde ver perfeitamente bem que cada uma se sentara em um trono de joias de ouro requintado. Elas estavam falando baixinho, juntas, admirando a flor Radhika Real — que era um delfínio azul no momento. Então, a mais morena sorriu e enviou uma de suas assistentes atrás de um vaso com terra para que a planta sobrevivesse.
  Elena olhou ligeiramente para os outros tesouros. Um galão de água da Fonte da Eterna Juventude e Vida. Seis garrafas de vinho Black Magic e pequenas uvas ao seu redor. Um arco-íris resplandecente disputava com os vitrais em cores brilhantes, alguns brutos, alguns já lapidados e polidos, mas a maioria deles não era só facetada, mas sim esculpidas a mão com inscrições misteriosas de ouro ou prata.
  Havia duas caixas pretas e grandes, forradas com veludo e com cilindros de papiro ou papel dentro delas, uma com uma rosa negra deitada ao seu lado; e outra com um spray colorido. Elena sabia o que eram aqueles documentos amarelados com selos de cera: as ações para os campos de rosas negras e para o paraíso kitsune.
  Quando você via os tesouros juntos daquele jeito, pareciam ser coisas demais, Elena pensou. Qualquer objeto dos Sete… Não, agora eram Seis… Tesouros Kitsune era o bastante para se comercializar.
  Um galho da Radhika Real, que agora estava sendo trazida de volta, (uma larkspur rosa que estava se transformando em uma orquídea branca) colocada devidamente em um novo vaso, era imensuravelmente precioso. Havia uma única rosa negra aveludada, com um Poder de segurar a mais poderosa das magias.
  Uma joia do tesouro da caverna de mineração, talvez um diamante com o duplo tamanho de um pulso que fariam a Grande Estrela da África e o Jubileu de Ouro passar vergonha. Um dia no paraíso kitsune, onde um dia poderia parecer uma vida inteira. Uma gota da água efervescente que faria um humano viver tanto quanto o mais velho dos Antigos...
  É claro, devia haver também a maior Esfera Estelar já vista, cheia de Poder místico, mas Elena tinha esperança de que os Guardiões não reparassem nisso.
  Esperança? Ela se perguntou e sacudiu a cabeça, fazendo com que Bonnie apertasse sua mão levemente. Nada de esperança. Ela não ousava ter esperança. Nem uma gota.
  Autro assistente, ruiva, deu-lhes um olhar esverdeado e gelado, pegando o galão de água de plástico que dizia Água do Setor 3 no rótulo. Sage rugiu quando ela saiu.
  — Qu’est-ce qui lui prend? Quer dizer, qual o problema dela? Eu gosto da água do setor dos vampiros. Eu não gosto daquele lixo de água do Mundo Inferior.
  Elena já havia descoberto o código de cor para os Guardiões.
  As loiras eram aquelas que mexiam nos negócios, impacientes somente com atrasos. As morenas eram as gentis — talvez houvesse menos trabalho para elas fazerem aqui no Mundo Inferior.  As ruivas dos olhos verdes eram simplesmente as megeras. Infelizmente, a jovem no trono do centro, lá em cima do tablado, era ruiva.
  — Bonnie? — Ela sussurrou.
  Bonnie teve que engolir e fungar antes que pudesse falar.
  — Sim?
  — Eu já te falei o quanto eu adoro seus olhos?
  Bonnie ficou encarando-a por um bom tempo com seus olhos castanhos antes de começar a tremer de tanto rir. Pelo menos aquilo começou como uma risada, e então Bonnie enfiou a cabeça no ombro de Elena e simplesmente ficou tremendo.
  Stefan apertou a mão de Elena.
  — Ela tentou tanto... Por você. Ela… Ela o amava também, entenda. Eu nem sabia. Eu acho... Eu acho que estive cego de ambos os lados.
  Ele passou a mão livre pelo cabelo já despenteado. Ele parecia muito jovem, como se fosse um menino que tinha sido subitamente punido por fazer algo que não fora informado que era errado. Elena se lembrou dele no quintal da pensão, com ela dançando com seus pés em cima dos dele, e depois no quarto no sótão, com ele beijando suas mãos, os nós de seus dedos doloridos depois de tantas marteladas, seus pulsos.  Ela queria dizer a ele que tudo ficaria bem, que o riso voltaria para os seus olhos, mas ela não podia aguentar em mentir para ele.
  De repente Elena sentiu como se fosse uma mulher muito, muito velha, que podia ouvir e ver bem vagamente, que cada movimento lhe causava um dor terrível e que sentia um frio por dentro. Todas as suas articulações e ossos estavam cobertos de gelo.
  Finalmente, quando todos os tesouros, incluindo a Chave Mestra brilhante com diamantes, foram levados até as mulheres sobre os tronos para serem manuseados, pesados, examinados e discutidos, seguido com uma olhadela calorosa da mulher com pele morena chegando até o grupo de Elena.
  — A Sentença de vocês foi decidida. E — Ela adicionou em uma voz tão suave quanto o golpe de uma libélula — elas estão bastante impressionadas. Isso não acontece com muita frequência. Falem mansamente e mantenham suas cabeças para baixo e acho que vocês terão seus desejos mais profundos realizados.
  Algo dentro de Elena deu um salto que a teria feito agarrar a túnica de uma das assistentes, mas, felizmente, Stefan a tinha dentro de um abraço de ferro. A cabeça de Bonnie saiu do ombro de Elena, e Elena teve que conter-se.
  Eles caminharam, o retrato da humildade, até onde quatro almofadas vermelhas brilhavam contra o tecido dourado do chão. Certa vez, Elena teria se recusado a se humilhar desse jeito. Agora, ela estava agradecida por ter um lugar macio para descansar seus joelhos.
  Assim tão perto, ela pôde ver que as governantas usavam um colar de metal, no qual uma única pedra estava pendurada sobre a testa de cada uma.
  — Nós consideramos o seu pedido — A morena disse, seu diadema de ouro branco com pingente de diamante ofuscava Elena com alfinetadas de lilás, vermelho e azul marinho.
  — Oh, sim — Ela adicionou, rindo. — Nós sabemos o que vocês querem. Até mesmo um Guardião de rua teria que ser bem ruim em seu trabalho para não saber. Vocês querem que sua cidade seja... Renovada. As casas queimadas reconstruídas. As vítimas da peste malach recriadas, com suas almas de volta ao normal, e suas memórias...
  — Mas, primeiro — Interrompeu a loira, acenando com a mão —, nós não temos assuntos para tratar? Essa garota... Elena Gilbert... Não pode ser qualificada como porta-voz do grupo. Se ela se tornar uma Guardiã, ela não pertence aos peticionários.
  A ruiva sacudiu a cabeça como uma potranca impaciente, fazendo com que o ouro rosa de sua diadema piscasse, e seus rubis brilhassem.
  — Oh, vai em frente então, Ryannen. Se o seu nível de recrutamento são modesto...
  A loira encarregada dos negócios ignorou isso, mas inclinou-se, alguns de seus cabelos retido atrás de seu rosto devido ao pingente de safira.
  — Que tal, Elena? Eu sei que nosso primeiro encontro foi... Infeliz. Você tem que acreditar que eu sinto muito por isso. Mas você estava indo bem em se tornar uma Guardiã completa quando tivemos ordens de Lá de Cima para dar-lhe um corpo novo, assim você poderia pegar sua vida humana novamente.
  — Vocês fizeram isso? É claro que fizeram — A voz de Elena estava baixa, suave e lisonjeira. — Vocês podem fazer tudo. Mas... Nosso primeiro encontro? Eu não me lembro...
  — Você era jovem demais, e você viu só um flash do nosso carro aéreo enquanto ele passava pelo veículo de seus pais. Era para ser um pequeno acidente com só uma vítima... Você. Mas, ao invés disso...
  As mãos de Bonnie voaram até sua boca. Ela estava entendendo algo que Elena não entendia. O “veículo” dos seus pais...? A última vez que dirigira com seu pai e sua mãe... E a pequena Margaret... Fora no dia do acidente. No dia em que ela havia distraído seu pai, que estava dirigindo…
  — Olha, papai! Veja esse lindo carr…
  E então houve o impacto.
  Elena se esqueceu de ser humilde e de manter a cabeça baixa. Na verdade, ela a levantou, encontrando olhos azuis salpicados de dourado muito parecidos com os dela. Seu próprio olhar, ela sabia, era penetrante e duro.
  — Vocês... Mataram meus pais? — Ela sussurrou.
  — Não, não! — A morena gritou. — Foi uma operação que falhou. Tínhamos que interagir com a dimensão da Terra somente por alguns minutos. Mas, inesperadamente, seu talento aflorou. Você viu o nosso carro aéreo. E ao invés de só uma vítima aparente: você, seu pai se virou para olhar e...
  Lentamente, a voz dela falhou enquanto Elena virava os olhos incrédulos sobre ela.
  Bonnie estava olhando cegamente à distância, quase como se estivesse em transe.
  — Shinichi — Ela respirou. — Aquele enigma estranho dele... Ou o que quer que aquilo seja. Aquele que diz que um de nós cometeu assassinato, e que não tinha nada a ver com vampiros ou morte de misericórdia...
  — Eu sempre presumi que fosse eu — Stefan disse silenciosamente. — Minha mãe nunca se recuperou do meu parto. Ela morreu.
  — Mas isso não faz de você um assassino! — Elena gritou. — Não igual a mim. Não igual a mim!
  — Bem, é por isso que estou te perguntando agora — A loira dos negócios disse. — Foi uma missão imperfeita, mas você entende que estávamos apenas tentando recrutá-la, não é? É o método tradicional. Nossos genes nos aprimoraram para sermos os melhores sobre demônios irracionais e perigosos, que não respondem à força tradicional, mas que exigem um plano calculado.
  Elena sufocou um grito. Um grito de ira, agonia, descrença, culpa... Ela não sabia disso. Seus Planos. Seus esquemas. O jeito que ela lidava com os meninos do colégio, nos velhos tempos... Estava tudo em sua genética. E... Seus pais… Por que eles morreram?
  Stefan se levantou. Sua mandíbula estava dura, seus olhos verdes estavam queimando brilhantemente. Ele apertou a mão de Elena e ela ouviu:
  Se você quiser brigar, eu topo.
  Mais, non.
  Elena virou-se e viu Sage. Sua voz telepática era inconfundível. Ela foi obrigada a ouvir.
  Não podemos lutar com eles, estando nós em seus territórios, e vencermos. Nem eu posso. O que vocês podem fazer é fazê-las pagarem! Elena, minha corajosa, os espíritos de seus pais encontraram, sem dúvidas, um novo lar. Seria crueldade trazê-los de volta. Mas vamos exigir dos Guardiões o que você quiser. Um ano ou um dia no passado, exija qualquer que seja o seu desejo! Eu acho que todos nós a apoiaremos.
  Elena pausou. Ela olhou para as Guardiãs e olhou para os tesouros. Ela olhou para Bonnie e para Stefan, que estavam esperando. Havia permissão nos olhos deles.
  Então ela disse bem devagar para as Guardiãs
  — Isso vai custar muito para vocês. E eu não quero ouvir que nada disso é impossível. Por todos os tesouros de volta e a Chave Mestra também... Eu quero minha velha vida. Não, eu quero uma nova vida, com a minha velha vida incluída. Quero ser Elena Gilbert, exatamente como se eu tivesse me formado com a minha turma, e quero ir à faculdade Dalcrest. Quero acordar na casa de minha tia Judith de manhã e descobrir que ninguém percebeu que eu estivesse fora durante quase dez meses. Eu quero notas boas no meu último ano de ensino médio... Só para o caso de emergências. E quero que Stefan tenha vivido pacificamente na pensão o tempo todo, e que todos o aceitem como meu namorado. E quero que cada coisa que Shinichi, Misao e aquela para quem eles trabalhavam sejam desfeitas e esquecidas. Eu quero que essa pessoa esteja morta. E quero que tudo que Klaus fez à Fell’s Church seja desfeita, também. Quero Sue Carson de volta! Quero Vickie Bennet de volta! Quero todo mundo de volta!
  Bonnie disse fracamente:
  — Até mesmo o Sr. Tanner?
  Elena entendeu. Se o Sr. Tanner não tivesse morrido — tendo seu sangue misteriosamente drenado —, então Alaric Saltzman nunca teria sido chamado para Fell’s Church. Elena lembrou-se de Alaric da experiência fora do corpo: cabelo de areia, olhos castanhos e risonhos. Ela pensou em Meredith e seu quase noivado. Mas quem era ela para brincar de Deus? Para dizer sim, essa pessoa poderia morrer porque ela era desagradável e mal-amada, mas essa aqui tinha que sobreviver porque ela era minha amiga.

Capítulo 42

  — Isso não é um problema — A governanta loira, Ryannen, disse inesperadamente. — Podemos fazem com que o Sr. Tanner tenha repelido um possível ataque de vampiros e a escola chamou Alaric Saltzman para assumir seu lugar e investigar. Certo, Idola? — Ela disse olhando para a ruiva; para a morena, ela disse: — Não é, Susurre?
  Elena não tinha certeza. Apesar de ter escutado o que as mulheres diziam, ela não estava prestando muita atenção. Tudo que ela sabia era que sua voz tinha ficado rouca e que lágrimas caíam de seus olhos.
  — E... Pela Chave Mestra... Eu quero...
  Stefan apertou sua mão. Elena, de repente, percebeu que eles estavam em pé, todos os três, lado a lado. E o olhar em cada rosto era o mesmo: determinação mortal.
  — Eu quero Damon de volta — Ela não ouvira esse tom em sua voz desde o dia em que lhe contaram que seus pais haviam morrido.
  Se tivesse havido uma mesa, ela teria colocado os punhos cerrados sobre ela e faria seu melhor para bater de frente com as mulheres. Como não havia, ela simplesmente inclinou-se em direção a elas, falando numa voz baixa e rala.
  — Se vocês fizerem isso... Trazê-lo de volta, exatamente como ele era antes de entrar na Casa de Portais... Então vocês poderão pegar a Chave Mestra e os tesouros. Se disserem não... Vocês perdem tudo. Tudo. Isso não é negociável, entendem?
  Ela continuou encarando os olhos verdes de Idola. Ela se recusava a olhar para Susurre, com medo de ter que abaixar sua cabeça e começar a esfregar seus dedos em pequenos círculos. Ela não daria nem uma olhadela para Ryannen, que estava olhando para ela firmemente, que entrou do modo de negociações. Ela simplesmente olhou para aqueles olhos verdes sob sobrancelhas teimosas.Idola fez um som de mau humor e balançou sua cabeça linda.
  — Olha, alguém claramente cometeu um erro na preparação dessa entrevista.
  Uma olhadela para Susurre.
  — As outras coisas que você pediu... Tudo junto, já é difícil de realizar. Você entende isso? Você entende que isso envolve mudar lembranças de todos os habitantes ao redor da cidade, mudar as lembranças dos dez meses que se passaram? Isso significa mudar quase tudo em Fell’s Church... E há muita coisa para ser mudar... Sem mencionar os outros meios de comunicação, não? Quer dizer, teremos que implorar pela alma de três humanos e trazê-los à vida novamente. Eu nem ao menos sei se temos pessoal para isso...
  Ryannen colocou uma mão no braço da ruiva.
  — Nós temos. As mulheres de Susurre têm umas coisinhas para fazer no Mundo Inferior. Eu poderia emprestar trinta por cento das minhas... Afinal, teremos que enviar uma petição para a Corte Maior por aqueles espíritos...
  Idola interrompeu.
  — Certo. O que eu estava dizendo é que só poderemos cumprir isso... Se vocês nos derem a Chave. No entanto, quanto a seu companheiro vampiro... Não podemos dar vida ao inanimado. Não funciona com vampiros. Uma vez que eles morrerem… Eles morrem para sempre.
  — Isso é o que vocês dizem! — Stefan gritou, tentando ficar na frente de Elena. — Mas por que somos os mais amaldiçoados, entre todas as criaturas? Como vocês sabem que é impossível? Vocês já tentaram alguma vez?
  Idola estava fazendo um gesto de repugnância, quando Bonnie interrompeu, sua voz tremendo:
  — Isso é ridículo! Vocês podem reconstruir uma cidade, podem matar a pessoa que esteve por trás do que Shinichi e Misao fizeram, mas não podem trazer um vampiro de volta? Vocês trouxeram Elena!
  — A morte de Elena como vampira permitiu que ela se tornasse a Guardiã que, originalmente, estava predestinada a ser. Quando a pessoa que dava ordens a Shinichi e Misao: era Inari Saitou... Obaasan Saitou, como vocês a conheciam... E ela já está morta, graças aos seus amigos em Fell’s Church, que a enfraqueceram... E a vocês, que destruíram a Esfera Estelar dela.
  — Inari? Quer dizer, a avó de Isobel? Você está dizendo que era a Esfera Estelar dela que estava no tronco da Grande Árvore? Isso é impossível! — Bonnie gritou.
  — Não, não é. É a verdade — Ryannen disse simplesmente.
  — E ela está morta agora?
  — Depois de uma longa batalha que matou a seus amigos. Sim... Mas o que a matou verdadeiramente foi ter sua Esfera Estelar destruída.
  — Então — Susurre disse silenciosamente —, se vocês seguirem a onda... De certo modo, o seu Damon morreu para salvar Fell’s Church de outro massacre igual ao daquela ilha japonesa. Ele vivia dizendo que era isso que ele veio fazer aqui no Mundo Inferior. Vocês não acham que ele ficaria... Satisfeito? Em paz?
  — Em paz? — Stefan cuspiu com amargura, e Sage rosnou.
  — Mulher — Ele disse —, com certeza você não conheceu Damon Salvatore antes.
  O tom em sua voz estava... Mais resonante, mais ameaçadora, de alguma forma... Fazendo Elena parar de encarar Idola. Ela se virou e olhou...
  ... E viu a grande sala sendo preenchida pelas asas de Sage.
  Elas não eram iguais aos seus efêmeros Poderes de Asa. Elas eram, claramente, parte de Sage. Eram aveludadas e reptilianas e, abertas desse jeito, se estendiam de parede à parede, tocando o teto grande e dourado. Elas também demonstravam o porquê de Sage não usar camisas com frequência.
  Ele era bonito nessa forma: pele bronzeada e cabelos contra as gigantes asas de aparência delicada. Mas Elena, depois de olhar uma vez para ele, sabia que era hora de jogar o ás na manga. Ela virou-se para encontrar diretamente os olhos verdes de Idola.
  — Esse tempo todo, nós estivemos barganhando pelos tesouros da Casa de Portais — Ela disse — E... Uma Chave Mestra.
  — Uma Chave Mestra que fora roubada por kitsune eras e eras atrás — Susurre explicou calmante, erguendo seus olhos.
  — E vocês disseram que não é suficiente para trazer Damon de volta — Elena forçou sua voz para que não vacilasse.
  — Nem se esse fosse o seu único pedido — Ryannen jogou um pouco de seu cabelo dourado acima do ombro.
  — Isso é o que você diz. Mas... E se eu colocar na negociação... Outra Chave Mestra?
  Houve uma pausa, e o coração de Elena começou a bater de medo. Pois esse era o tipo errado de pausa. Não houve arfadas de choque. Nenhum olhar de surpresa entre uma Guardiã para a outra. Nenhum olhar de descrença.
  Depois de um instante, Idola disse presunçosamente.
  — Você se refere à outra Chave roubada que seus amigos têm na Terra? Ela foi confiscada no momento em que eles a esconderam. É uma propriedade roubada. Pertence a nós.
  Ela esteve aqui tempo demais, nas Dimensões das Trevas, Elena pensou com uma parte de sua mente. Ela estava se divertindo.
  Idola se inclinou em direção a ela, como se confirmasse a dedução de Elena.
  — Simplesmente... Não é... Possível — Ela disse enfaticamente.
  — Verdade, não é — Ryannen adicionou rapidamente. — Nós não sabemos o que acontece com vampiros. Mas eles não passam por nós. Nós nunca os vimos depois da morte. A explicação mais simples é que eles simplesmente... Somem — Ela estalou seus dedos.
  — Eu não acredito nisso! — Elena estava ciente que sua voz havia aumentado de volume. — Eu não acredito nisso nem por um segundo!
  Vozes, não atacando alguém em particular, explodiram em um clamor de argumentos em torno de Elena, formando uma espécie de poema:

Não é possível. Simplesmente impossível (Mas por favor...)
Não! Damon se foi, e perguntar para onde, é o mesmo que pergunta aonde a flama de uma vela vai quando é apagada (Mas vocês não deviam tentar trazê-lo de volta, pelo menos?)
O que aconteceu com a gratidão? Vocês quatro deviam ser gratos que as outras coisas que vocês pediram possam ser feitas. (Mas em trocas de ambas as Chaves Mestras...)
Nenhum Poder que possuímos pode trazer Damon de volta! Elena devia voltar à realidade. Ela já foi mimada demais! (Mas que mal pode fazer se vocês tentarem novamente?)
Certo! Se vocês querem saber, Susurre já nos forçou a tentar. E nada aconteceu! Damon... Se… Foi! Seu espírito está em um lugar que não pode ser encontrado no éter! Isso é o que acontece com vampiros, e todos sabem disso!

  Elena encontrou-se olhando para baixo, para suas próprias mãos, que estavam bem limpas, mas com unhas quebradas e as juntas sangrando.
  O mundo exterior tornou-se irreal novamente. Ela estava dentro de si, brigando com sua dor, lutando contra o conhecimento que Idola, a Guardiã central, não havia mencionado antes: que elas haviam procurado pelo espírito de Damon. E que ele havia... Sumido.
  De repente, a sala estava se pressionando contra ela. Não havia ar suficiente. Só havia essas mulheres: essas Guardiãs, magicamente poderosas, que não tinham Poder ou magia o suficiente para salvar Damon... Ou, pelo menos, nem ao menos se importavam em tentar uma segunda vez.
  Ela não tinha certeza o que estava acontecendo com ela. Sua garganta estava doendo, seu peito estava, ao mesmo tempo, grande e apertado. Cada batimento de seu coração soava através dela como se tentasse sacudi-la até a morte.
  Até a morte. Em sua mente, ela viu uma mão segurando um copo de Clarion Loess Black Magic.
  E então, Elena soube que ela tinha que manter-se firme, manter os braços firmes, de certa forma, e sussurrar as palavras em sua própria mente. Mas, por último, dizer o feitiço, dizê-lo em voz alta.
  Por fim... As coisas desaceleraram. Quando os olhos de Idola — um nome perfeito para alguém que idolatrava a si mesmo, Elena pensou —, de Ryannen e de Susurre caíram sobre ela, com as bocas abertas, chocadas demais para moverem até mesmo um dedo serenamente, com calma, Elena disse:
  — Asas da Destrui...
  Foi uma soldada, uma das várias soldadas rasas, uma das morenas, que a parou. Ela saltou por cima do tablado e, com uma velocidade desumana, bateu com sua mão sobre a boca de Elena, de modo que a última sílaba foi um murmúrio e o corredor dourado, verde e azul não explodiu em fragmentos de metal quente correndo como se fossem riachos de lava; a fonte que jorrava flores não evaporou e os vitrais não se quebraram em átomos.
  Então havia mais braços ao redor de Elena, levando-a para baixo, deixando-a respirar com escassamente, mesmo quando ela ficou mole ao tentar sugar um pouco de ar. Elena lutou como um animal, com seus dentes e unhas, para escapar. Mas ela, com o tempo, foi completamente detida, presa ao chão. Ela pôde ouvir a voz profunda e furiosa de Sage e Stefan, entre estouros telepáticos desesperados para ela, implorando e explicando:
  — Ela ainda não voltou à realidade! Ela nem ao menos sabe o que está fazendo!
  Só que, mais alto, ela pôde ouvir as vozes das Guardiãs.
  — Ela poderia ter matado a todas nós!
  — Essas Asas... Eu nunca vi algo tão mortal!
  — Uma humana! E só com três palavras, ela poderia ter nos eliminado!
  — Se Lenea não a tivesse detido...
  — Ou se ela estivesse a alguns centímetros mais para trás...
  — Ela destruiu uma lua, vocês sabem! Não há mais nenhuma vida lá, e cinzas ainda estão caindo do céu!
  — Isso não está em questão. O mais importante é que ela não devia ter Poderes de Asa. Elas devem ser cortadas.
  — Isso mesmo... Cortem suas Asas! Façam isso!
  Elena reconheceu as vozes de Ryannen e Idola. Ela ainda estava tentando lutar, mas a agarraram com tanta força, de uma forma tão impiedosa, que só o fato dela tentar ganhar um pouco de ar já a deixava exausta.
  E então, eles arrancaram suas Asas. Foi rápido, pelo menos, e Elena sentiu pouca coisa.
  O que doía mais era seu coração. Um pouco de orgulho e teimosia saíram na hora do combate, e agora ela tinha vergonha por ter casa suas Asas sendo arrancadas. Primeiro saíram as Asas da Redenção, aquelas em tons de arco-íris. Depois, as Asas da Purificação, brancas e iridescentes como teias de aranha.  Asas de Voo, iguais à cor de mel. Asas da Lembrança, de cor violeta e azul meia-noite. E, em seguida, as Asas de Proteção, de cor verde esmeralda e ouro, as Asas que salvaram seus amigos do ataque de Bloddeuwedd, na primeira vez que eles entraram nas Dimensões das Trevas.
  E finalmente, as Asas da Destruição, altas, de cor ébano com bordas delicadas como renda preta.
  Elena tentou ficar em silêncio enquanto cada Poder era retirado. Mas após a primeira ou a segunda ter caído ao seu lado, ela vendo somente sombras, ela ouviu uma pequena arfada, percebendo que era sua própria voz. E com o próximo corte, um pequeno grito involuntário.
  Por um momento, houve silêncio. E então, de repente, houve um ruído esmagador. Ela pôde ouvir Bonnie lamentando, Sage rugindo e Stefan, o gentil Stefan, gritando blasfêmias e maldições para as Guardiãs. Elena adivinhou pelo som abafado de sua voz que ele estava lutando contra elas, lutando para chegar até ela.
  Ele a alcançou, de alguma forma, justo quando as mortais e delicadas Asas da Destruição foram arrancadas de seus ombros e mente, e caiu como se fosse uma sombra ao chão. Foi bom ele tê-la alcançado, pois, no passado, Elena era menos perigosa do que era agora com os Poderes de Asa despertos nela. De repente, as Guardiãs pareciam ter medo. Elas pararam atrás dela, aquelas mulheres fortes e perigosas, e só Stefan estava lá para pegá-la e segurá-la em seus braços.
  Atordoada e confusa, ela era somente uma garota comum de dezoito anos. Exceto por seu sangue. Eles queriam tirar-lhe seu sangue, também... Para “purificá-lo”. Essas três governantas e suas assistentes já estavam reunidas em um triângulo, determinadas, em torno dela e estavam trabalhando em sua magia quando Sage berrou:
  — Parem!
  Elena caiu nos ombros de Stefan, podendo vê-lo vagamente, suas asas negras aveludadas ainda abertas de parede à parede, ainda tocando o teto dourado. Bonnie se agarrou a ele como se fosse uma penugem de dente-de-leão perdida.
  — Vocês já diminuíram a aura dela a quase nada — Ele rosnou. — Se vocês “purificarem” o sangue dessa pauvre petite completamente, ela morrerá... E então ela despertará. Vocês terão criado une vampira, Mesdames. É isso que vocês querem?
  Susurre recuou. Para uma governanta tão dura e inflexível, ela parecia quase gentil demais — mas não o suficiente ao arrancar minhas Asas, Elena pensou, contorcendo os ombros para aliviá-los. Talvez ela não soubesse o quanto doeria, outra parte de sua mente ofereceu vagamente.
  Então, toda a sua mente se juntou sua reunião de emergência. Algo quente e fresco estava deslizando na parte detrás de seu pescoço, em pequenas gotas. Não era sangue. Não, isso era, definitivamente, mais precioso do que as Guardiãs lhe havia tirado. As lágrimas de Stefan.
  Ela se balançou fortemente, tentando colocar-se de pé. De alguma forma, tremulamente, ela conseguiu. Ela só percebeu o quão trêmula ela estava quanto  tentou levantar a mão e limpar as lágrimas do grande rosto de Stefan com o polegar. Sua mão inteira tremeu como se ela estivesse fazendo uma brincadeira infantil. Seu polegar atingiu o rosto dele com força o suficiente para não fazê-lo estremecer. Ela olhou para ele com uma desculpa muda, chocada demais para tentar falar.
  Stefan estava falando. Mais e mais.
  — Não importa — Ele estava dizendo. — Tudo bem, amor. Oh, minha amada, tudo ficará bem.
  Ele enxugou os olhos com uma mão que estava firme como rocha, o tempo todo olhando só para ela, e — ela sabia — pensando somente nela. Ela sabia disso porque ela também conhecia aquele momento, quando ele chegou.
  Cabelos ruivos estavam em sua linha de visão, desfocada em meio a lágrimas novas. Cabelos ruivos e olhos verdes estreitos, bem próximos a ela. Foi quando Elena sentiu que Stefan se lembrou de que havia outras coisas além de Elena no mundo.
  Seu rosto mudou. Ele não rosnou ou abriu sua mandíbula. A mudança foi uma alteração completa, mas se centrava em seus olhos, que ficaram mortalmente estreitos enquanto tudo o mais se tornava forte e feroz.
  — Se você tocar nela de novo, sua vadia perversa, eu vou rasgar sua garganta — Stefan disse, cada palavra parecendo ferro e gelo caindo no chão.
  As lágrimas de Elena pararam com o choque. Stefan não falava assim com as mulheres. Nem Damon falaria... Falava. Mas as palavras ainda estavam ecoando no silêncio súbito da sala com aparência de catedral. As pessoas estavam se afastando.
  Idola estava se afastando também, mas seus lábios estavam curvados.
  — Você acha que só porque somos Guardiãs não podemos prejudicá-la...?
  Ela estava começando, quando a voz de Stefan a cortou claramente.
  — Eu acho que só porque vocês são “Guardiãs” vocês matam hipocritamente e saem impunes disso — Stefan disse, e seus lábios produziram palavras mais convincentes e assustadoras do que as de Idola. — Vocês teriam matado Elena se Sage não tivesse impedido. Maldita!
  Ele acrescentou em voz baixa, mas com absoluta convicção que fez com que Idola desse mais um passo pra trás
  — Sim, é melhor você ir se reunir com suas amiguinhas — Ele adicionou. — Eu posso decidir matar você, de qualquer forma. Eu matei meu próprio irmão, como você deve ter percebido.
  — Mas, com certeza... Isso foi depois de você ter levado um golpe mortal.
  Susurre estava entre os dois, tentando interceder.
  Stefan deu de ombros. Ele olhou para ela com o mesmo desprezo que olhou para a outra governanta.
  — Eu ainda podia usar meus braços — Ele disse deliberadamente. — Eu podia ter decidido abandonar minha arma, ou aliviá-lo da dor. Ao invés disso, eu optei por colocar uma lâmina direto em seu coração — Ela mostrou seus dentes num sorriso distintamente hostil. — E agora eu nem ao menos preciso de uma arma.
  — Stefan — Ela conseguiu sussurrar no último segundo.
  — Eu sei. Ela é mais fraca do que eu e você não quer me ver matando-a. É por isso que ela ainda está viva, amor. É o único motivo.
  Enquanto Elena levantava seus olhos meio assustados para ele, Stefan adicionou em uma voz que só ela pudesse ouvir.
  É claro, há algumas coisas sobre mim que você não sabe, Elena. Coisas que eu espero que você nunca veja. Conhecer você... Te amar… Fez com que eu quase esquecesse disso.
  A voz de Stefan em sua cabeça acordou algo dentro de Elena. Ela levantou a cabeça e olhou para a massa indistinta de Guardiãs em torno deles. Ela viu cabelos cacheados de morango suspensos no ar. Bonnie. Bonnie lutando. Fazendo isso fracamente, não somente porque um par de Guardiãs loiras e outro par de morenas a estavam segurando no ar, uma de cada membro. Enquanto Elena a encarava, ela parecia recuperar suas forças e lutar mais. E Elena pôde ouvir... Algo. Estava fraco e longe, mas quase soava como… Seu nome. Como seu nome era pronunciado por meio de um sussurro ou por meio de um zumbido de passar de rodas de bicicletas.
  Le... Na... Eee... Le...
  Elena tentou chegar internamente até o som. Tentou desesperadamente se agarrar ao que vinha, mas nada aconteceu. Ela tentou um truque que, ontem, ela acharia bem fácil: canalizar seu Poder para sua telepatia. Não funcionou. Ela tentou sua telepatia.
  Bonnie! Você pode me ouvir?
  Não houve nem um menor sinal de mudança na expressão da menina.
  Elena havia perdido sua ligação com Bonnie.
  Ela assistia enquanto Bonnie percebia a mesma coisa, assistia aquele corpinho brigando para se libertar. O rosto de Bonnie, arrebitado em um pálido desespero, estava triste e, de alguma forma, indescritivelmente puro e belo, de uma só vez.
  Isso nunca acontecerá conosco, a voz de Stefan em sua cabeça disse para ela firmemente. Nunca! Eu te dou minha...
  Não! Elena pensou de volta, supersticiosamente com medo de alguma maldição.
  Se Stefan havia jurado, algo devia acontecer... Ela devia se transformar em uma vampira ou em um espírito... Para assegurar que ele não quebrasse sua palavra.
  Ele parou e Elena soube que ele a havia ouvido. E, de alguma forma, esse conhecimento, de que Stefan havia ouvido uma única palavra dela, a acalmou. Ela sabia que ele não estava espionando. Ele ouviu porque ela enviou o pensamento para ele. Ela não estava sozinha.
  Ela podia ser comum novamente; elas poderiam até ter tirado suas Asas, a maioria de seus Poderes e seu sangue, mas ela não estava sozinha. Ela se inclinou em sua direção, sua testa contra o queixo de Stefan.
  “Ninguém fica sozinho.”
  Ela havia dito isso para Damon. Damon Salvatore, um ser que não existia mais. Mas que ainda era convocado por ela devido a uma só palavra, um grito final. Seu nome.
  Damon!
  Ele morrera quatro dimensões atrás. Mas ela pôde sentir Stefan apoiando-a, ampliando sua transmissão, enviando-a como um sinalizador através da multidão de mundos que os separavam do corpo frio e sem vida dele.
  Damon!
  Não houve nenhum sinal de resposta. É claro que não. Elena estava apenas se enganando.
  De repente, algo mais forte do que a tristeza, mais forte do que a auto-piedade, ainda mais forte que a culpa, tomou conta dela. Damon não gostaria que ele fosse carregada para fora daquele hall, mesmo que fosse por Stefan. Especialmente por Stefan. Ele iria querer que ela não mostrasse nenhum sinal de fraqueza para aquelas mulheres que a haviam destruído e humilhado.
  Sim.
  Esse era Stefan. Seu amor, mas não seu amante, disposto a amá-la a partir de agora e até o fim de seus dias...
  O fim... De seus dias?
  Elena estava, de repente, feliz por não poder projetar telepaticamente para estranhos e que Stefan havia estabelecido um escudo ao redor deles, quando ele a tinha tomado em seus braços.
  Ela virou-se para Ryannen, que ainda estava assistindo... Com cautela, mas ainda com a expressão de negócios em seus olhos.
  — Eu gostaria de ir embora agora, se vocês não se importam — Ela disse, pegando sua mochila e a pendurando sobre o ombro, no melhor gesto de arrogância que ela pôde fazer.
  Houve um raio de agonia enquanto o peso da alça acertava o lugar onde a maioria de suas Asas havia surgido, mas ela manteve a cara de desprezo e indiferença.
  Bonnie, de volta ao chão desde que ela não estava mais lutando, seguiu o exemplo de Elena. Stefan havia deixado sua mochila na Casa de Portais, mas ele gentilmente segurou sua mão em torno do cotovelo de Elena, não para guiá-la, mas para mostrar que ele estava lá por ela. As asas de Sage se dobraram para trás e foram embora.
  — Você entende que, devido ao retorno desses tesouros que eram nossos por direito... Mas que fomos impedidas de recuperá-los... Você terá seus pedidos concedidos, exceto por algo impossí...
  — Entendo.
  Elena disse sem rodeios, justo quando Stefan disse, muito mais bruscamente:
  — Ela entende. Só façam isso logo, tá legal?
  — Já está tudo organizado — Os olhos de Ryannen, olhos azuis escuros respingados de dourado, encontraram os de Elena com um olhar não totalmente antipático.
  — A melhor coisa a se fazer — Susurre acrescentou apressadamente — seria que nós a colocássemos para dormir e a enviássemos para o seu antigo e novo quarto. No momento em que você acordar, tudo terá sido realizado.
  Elena forçou para que sua expressão não mudasse.
  — Me enviar para a Maple Street? — Ela perguntou, olhando para Ryannen. — Para a casa da tia Judith?
  — Em seus sonhos, sim.
  — Eu não quero estar dormindo — Ela se aproximou ainda mais de Stefan. — Não dei que elas me ponham para dormir!
  — Ninguém fará nada que você não queira — Stefan disse, e sua voz parecia um fio de uma navalha.
  Sage rugiu em seu apoio e Bonnie olhou para a mulher loira, rígida.
  Ryannen inclinou a cabeça dela.

  Elena acordou.
  Estava escuro e ela esteve dormindo. Ela não conseguia se lembrar exatamente de como ela havia caído no sono, mas ela sabia que ela não estava na liteira e ela sabia que ela não estava em um saco de dormir.
  Stefan? Bonnie? Damon? Ela pensou automaticamente, mas havia algo estranho com sua telepatia. Parecia que ela fora confinada em sua própria cabeça.
  Ela estava no quarto de Stefan?
  Devia estar um breu lá fora, já que ela não conseguia sequer ver o alçapão que levava ao pé do sótão.
  — Stefan? — Ela sussurrou, enquanto vários pedaços de informações se juntavam em sua cabeça.
  Havia um cheiro, que era tanto familiar quanto estranho. Ela estava deitada em uma cama de casal confortável, não em uma das camas de seda e veludo extravagantes de Lady Ulma, tampouco em uma das irregulares da pensão. Ela estava em um hotel?
  Enquanto esses pensamentos diferentes reuniam-se em seu cérebro, houve uma batida suave e rápida. Nós dos dedos batendo contra o vidro.
  O corpo de Elena se levantou. Ela arremessou para longe a colcha e correu até a janela, evitando os obstáculos misteriosos sem nem pensar direito. Suas mãos arrancaram as cortinas do caminho que, de alguma forma, ela soube que estavam lá, fazendo seu coração disparar e trazendo um nome aos seus lábios.
  — Da...!
  E então o mundo parou e fez seu salto mortal mais lento de todos.
  A visão de um rosto feroz, preocupado, amoroso e, ainda, estranhamente frustrado, apenas do outro lado da janela do segundo andar, trouxe as memórias de Elena de volta.
  Todas elas.
  Fell’s Church estava salva.
  E Damon estava morto.
  Sua cabeça inclinou-se lentamente até que sua testa tocou o painel de vidro frio.

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